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Doce, vermelha e saborosa: de onde veio a melancia?

Estadão

Há cerca de 4.300 anos, alguém desenhou o que parece uma melancia na parede de uma tumba no Egito. Grande, gordo, verde e com generosas listras. Tudo o que se esperaria de uma melancia. Está próximo da uva e de outras frutas, sugerindo que era comido já naquela época como nós comemos a melancia agora, crua e por seu gosto doce.

Esse detalhe de uma pintura na tumba de Khnumhotep em Saqqara era um quebra-cabeça. Embora os cientistas acreditassem que os ancestrais silvestres da melancia fossem originários do continente africano, nenhum deles sabia da existência de uma melancia silvestre perto do Vale do Nilo. De onde ele veio?

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Uma teoria dizia que o melão egusi da África Ocidental, cultivado por suas sementes, podia ser um descendente do ancestral silvestre mais recente da melancia, sugerindo que as origens da melancia se encontravam daquele lado do continente. Mas um trabalho publicado em maio na revista Proceedings of the National Academies of Sciences, conclui que o pequeno melão redondo Kordofan, nativo da região de Kordofan no Sudão é muito mais próximo geneticamente da nossa melancia moderna.

A descoberta sugere que a melancia vem da África Oriental e a genética do melão de Kordofan podia ser uma solução oportuna para os cultivadores na esperança de melhorar as futuras variedades de melancia. Como Kordofan não é muito distante do Egito, isto também pode sugerir uma origem da misteriosa fruta verde do formato de um ovo pintada na parede da tumba.

A descoberta exigiu que se vasculhassem lugares esquecidos da botânica africana, disse Guillaume Chomicki, um botânico da Universidade de Sheffield na Inglaterra e autor do novo trabalho.

O melão Kordofan - que tem cerca de 15 centímetros de largura, branco internamente e de um verde pálido com estrias delicadas na casca - é cultivado há muito tempo pelos camponeses no atual Sudão. No final dos século 19, um botânico alemão escreveu que poderia ser um progenitor da moderna melancia. Posteriormente, cientistas soviéticos indagaram a mesma coisa.

A maior parte dos membros do gênero da melancia, Citrullus, tem uma polpa amarga. Mas o melão Kordofan é doce. O que sugeriu que ele ou um dos seus ancestrais poderia ser a fonte da moderna melancia.

Para verificar se ele se enquadrava na família da melancia, os autores do atual trabalho sequenciaram os genomas de sete espécies de Citrullus. E descobriram que o melão Kordofan tem mais coincidências com a variedade moderna do que com o egusi da África Ocidental ou qualquer outro melão, sugerindo que eles estão muito mais relacionados.

“Acreditamos poder afirmar que este é o parente mais próximo”, afirmou Chomicki.

O melão Kordofan e a moderna melancia muito provavelmente surgiram de um melão silvestre há muito tempo, sugerem os resultados. Os cultivadores teriam se dado conta de que este melão era mais doce do que outros e o reproduziram em novas e saborosas variedades.

Os pesquisadores, entretanto, ainda não sabem quem pegou este ancestral do melão silvestre e o transformou no que está na parede da tumba em Saqqara. Ou o colocou no caminho para tornar-se o que comemos hoje. Chomicki e os seus colegas planejam sequenciar os genomas das sementes de melão encontradas nos sítios arqueológicos africanos para tentar determinar onde e quando os seres humanos conseguiram que as primeiras melancias tivessem uma forma mais comestível.

Os parentes silvestres das culturas domesticadas podem ser a fonte de genes interessantes, frescos, para os cultivadores. Uma nova cor, uma resistência à seca e uma nova maneira de combater as pragas são os tipos de tesouros que as plantas silvestres podem trazer para o pool de genes das variedades domesticadas.

Mesmo as variedades próximas da fonte, como o melão Kordofan pode ser, podem ajudar. O novo estudo constatou que ele tem diferentes formas de genes relativos à resistência a doenças do que a melancia comum.

Não se sabe ao certo se existem ainda versões silvestres do melão Kordofan ou dos seus parentes que crescem no Sudão, disse Chomicki. Nos século 19, escreveu o botânico alemão, cresciam variedades de melões selvagens. Mas esta região, perto de Darfur, hoje é de difícil acesso para os pesquisadores por causa da violência.

Muitos parentes silvestres das plantas cultivadas são ameaçados de extinção no mundo todo, resultado da perturbação provocada pelo homem e pela mudança climática. Quando eles conseguirem, terão a oportunidade de, com eles, melhorar as variedades domésticas.

Chomicki nunca experimentou o melão Kordofan - para a sua análise, os membros da equipe dependiam das amostras colhidas por outros. As histórias a respeito do seu sabor doce, o sinal revelador de que pode ter havido uma história para contar a respeito da moderna melancia, ainda são de segunda mão.

“Mas ainda tenho algumas sementes”, ele disse, “então vou plantá-las e ver o que acontece”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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