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A diferença entre poupar, investir e especular

Estadão

Marcelo Cabral. FOTO: DIVULGAÇÃO

Você é um poupador, um investidor ou um especulador? Poupar, investir e especular são três formas distintas de atuar no mercado, e é muito importante entender a diferença. Até há pouco tempo, a maioria dos brasileiros estava na categoria dos poupadores. Nos últimos anos, uma mudança inusitada vem ocorrendo no mercado: em busca de melhor rentabilidade, poupadores estão se transformado em especuladores. Trata-se de um movimento equivocado, que pode ter consequências desastrosas para o patrimônio de milhares de pessoas.

A queda da taxa Selic e a baixa rentabilidade das aplicações tradicionais tiraram da zona de conforto muitos brasileiros que estavam acostumados a simplesmente poupar em vez de procurar aplicações mais atrativas. Muitos especialistas insistem que, no contexto atual, devemos “tomar mais risco”. No entanto, é preciso cuidado. Aumentar o risco é inevitável, mas com inteligência e com foco no longo prazo. Quem simplesmente poupava agora precisa começar a investir, não a especular.

Sem entrar em definições acadêmicas, podemos, de forma simplificada, dizer que poupar significa acumular reservas financeiras; investir é multiplicar os recursos que foram poupados; especular é fazer apostas de alto risco no curto prazo. O primeiro passo é poupar. Para isto, basta manter gastos abaixo das despesas. A principal preocupação de quem poupa é a segurança — ou seja, evitar perdas e preservar os recursos ao longo do tempo. Se for possível obter algum retorno, tanto melhor; porém, a rentabilidade não é o mais importante.

Investir é diferente de simplesmente poupar. Quem investe não se contenta em apenas acumular reservas para o futuro ou para emergências. O investidor deseja gerar riqueza adicional a partir dos recursos poupados — ou seja, quer fazer o patrimônio crescer. Para que isso aconteça, o investidor precisa enfrentar riscos e incertezas, aceitando a possibilidade de perdas. O objetivo do poupador é relativamente simples: acumular e preservar recursos. Já o investidor tem um desafio mais complexo: formar expectativas com relação ao futuro e, a partir dessas expectativas, equilibrar as forças opostas do risco e do retorno.

Geralmente, poupadores naturalmente transformam-se em investidores, mas muitos brasileiros, seja por comodismo ou medo de tomar riscos, permaneceram na etapa inicial. Pressionados a buscar alternativas, aumentaram bruscamente o perfil de risco de suas aplicações sem a devida cautela. Investir é a alternativa inteligente entre o comodismo de simplesmente poupar e a temeridade de apostas incertas. Para distinguir investimento de especulação, basta considerar as características principais de cada uma das formas de atuar no mercado.

Investidores atuam no longo prazo; especuladores atuam no curto prazo. Investidores montam carteiras diversificadas e focam no conjunto das aplicações; especuladores fazem aplicações isoladas, uma de cada vez, sem analisar a carteira como um todo. Investidores querem otimizar a relação risco e retorno; especuladores querem maximizar o retorno e estão dispostos a correr riscos elevados se a aposta parecer atrativa. Investidores procuram identificar tendências econômicas de longo prazo e encontrar ativos subavaliados pelo mercado; especuladores tentam antecipar eventos inesperados e prever mudanças do humor do mercado. Investidores decidem com base em análises econômico-financeiras; especuladores decidem com base em gráficos. Ou seja, especular é o inverso de investir.

A cultura do investimento ainda é pouco disseminada no Brasil. Talvez devido à incerteza política e à volatilidade do ambiente econômico, ou por um resquício inconsciente dos tempos de inflação elevada, o país ainda é refém de uma mentalidade “curto-prazista”. Investir é criar riqueza pessoal através do crescimento de empresas, setores ou países — isto requer tempo, paciência e foco no longo prazo.

Em seu livro “Novos Imperativos para o Investidor Inteligente”, Jack Bogle, o lendário criador da Vanguard (segunda maior gestora de investimentos do mundo, com US$ 6,2 trilhões sob administração, mais de 4 vezes o PIB do Brasil), afirma: “A evidência histórica é absolutamente conclusiva: somente o investidor de longo prazo pode investir com sucesso”. Em 32 anos de atividade profissional, tive o privilégio de conviver com grandes gestores de investimento ao redor do mundo. Em todos esses anos, não conheci ninguém que tivesse tido sucesso especulando. No improvável evento de que isso aconteça, prometo escrever um artigo para contar que Jack Bogle errou. Enquanto isso, fica o alerta para quem está à procura de melhor rentabilidade: a solução é investir, não especular.

*Marcelo Cabral, gestor de investimentos internacionais e fundador da Stratton Capital

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