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Crítica 2

CinePOP Cinema

tornou-se uma das vozes mais expressivas do cenário do entretenimento contemporâneo e, apenas em sua estreia, conquistou aclame e sucesso financeiro – que lhe garantiu uma estatueta do Oscar de Melhor Roteiro Original e inúmeras outras indicações. Depois de , que é creditado como uma das melhores produções do século, Peele se jogou de cabeça no subestimado , thriller psicológico estrelado por Lupita Nyong’o (e que é o favorito do cineasta por parte deste que vos escreve). Agora, o diretor, roteirista e produtor retorna às telonas com o aguardado ‘Não! Não Olhe!’, cujo mistério por trás da história e do desenrolar dos eventos de fato elevou nossas expectativas consideravelmente.

A simples trama acompanha OJ (), um fazendeiro e criador de cavalos que, depois da trágica morte do pai, toma conta dos negócios da família e é auxiliado pela extrovertida e tagarela irmã, Emerald (), que tem uma ambição gigantesca de entrar na indústria do audiovisual. Resolvendo permanecer na pequena cidade de Agua Dulce para auxiliar o traumatizado OJ, Em tenta fazer o melhor que pode – mas, à medida que o tempo passa, os dois descobrem que algo de estranho se esconde nos céus, uma espécie de disco voador que se camufla nas nuvens e que ataca quando bem entende. E, quando eles se tornam alvo da fome mortal de uma criatura que ameaça a todos lá embaixo, decidem agir por conta própria para sobreviverem.

Conhecendo o estilo de Peele, nada é o que parece ser – e o terceiro longa-metragem do cineasta não seria diferente. Revestido por uma roupagem sci-fi que traz lembranças da rebeldia kitsch de ‘Marte Ataca!’ e do crescente suspense de ‘Guerra dos Mundos’, ‘Não! Não Olhe!’ mascara as verdadeiras intenções sob convencionalismos que, de certa maneira, já nos vem cansando há alguns anos. Afinal, temos a iminente e beligerante presença de um ser extraterrestre cujas intenções não são benévolas; a dinâmica de uma família marcada pelo luto e que precisa reatar os laços para conseguirem superar um problema gigantesco; e personagens coadjuvantes que servem como guias para a resolução da narrativa. Ora, não é surpresa que Kaluuya faz um ótimo trabalho, mas é Palmer quem rouba nossa atenção e que faz um glorioso retorno para os cinemas.

Entretanto, é inegável dizer que o diretor parece não saber em que caminho seguir – o que não significa que o filme seja ruim. Porém, quando colocamos a obra ao lado de suas predecessoras, é notável como o escopo mercadológico parece ter atingido Peele com força, visto que as outrora críticas sociais e o uso do terror como reflexo das teorias de raça do final do século XX e começo do século XXI deixa de existir em prol de uma universalização temática – cujas implicações no roteiro são óbvias demais. A estrutura narrativa divide-se em três linhas principais que convergem pela luta contra a ameaça alienígena (que não é um disco voador, e sim uma criatura metamórfica que ataca quando quer se alimentar), e todas se envolvem com o que chamamos de espetacularização – um termo que discorre sobre as consequências da fama.

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Emerald faz de tudo para conseguir a tão sonhada chance em Hollywood, utilizando o negócio da família através de uma paixão pela história do cinema e pelo artístico sangue que corre em suas veias; Antlers Host (), um renomado cineasta, auxilia os irmãos na tentativa de capturar imagens do disco e gestar o filme de sua carreira; Jupe Park (), ex-estrela de televisão, transforma um trauma da infância em uma mistura de humor e ironia para alcançar o sucesso e o reconhecimento – cada qual enfrentando, à sua maneira, o consecutivo e derradeiro preço da avidez desmedida. OJ, por sua vez, serve como contraponto, contentando-se em criar os cavalos e manter a vida normal que lhe é usurpada com a presença do extraterrestre.

Enquanto o roteiro tropeça mais vezes do que gostaríamos, o restante das engrenagens se encaixa com perfeição: temos a forte direção de Peele, que aposta fichas na simplicidade técnicas e na elaboração contemplativa de um cenário desértico; a trilha sonora de Michael Abels dialoga com outras do gênero, seja pela tétrica sensação de observação, seja pelo uso pungente e dissonantes dos instrumentos de corda, mas sempre visa a uma bizarra originalidade que remonta aos filmes de aventura dos anos 1990; a fotografia conflituosa equilibra os tons quentes do amarelo com o suspense melancólico do azul, que transforma os frames em pequenas pinturas aterrorizantes – principalmente em uma determina sequência em que o casarão de Em e OJ é alvejado com sangue.

pode não ser a melhor entrada da jovem filmografia de Peele, mas, sem sombra de dúvida, ainda é uma divertida aventura pela mente de um dos principais nomes do cenário cinematográfico atual. Por vezes, as fórmulas sci-fi ofuscam a ambição quase antropológica de que o cineasta se vale – porém, o resultado é bastante positivo e abre margem para interpretações infinitas e mirabolantes.

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