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Sofia Nestrovski: 'A História Invisível' e o trânsito das grandes cidades

UOL Estilo


Quase bati o carro. Eu circundava uma rotatória e um automóvel, vindo de uma das transversais, parou um instante antes de se chocar contra o meu. Buzinei, um calor me subiu pelo corpo, um misto de raiva e impotência quando a pessoa abriu a janela e gritou, também com raiva: a preferência é da rotatória!

Pois então!, eu queria gritar. Exatamente!, eu queria gritar. Não me lembro se o dia já estava difícil, mas se não estava, qualquer tempo no trânsito de uma grande cidade é capaz de estragá-lo.

Quase não uso carro. Quando uso, lembro-me do motivo: dirigir em uma cidade como São Paulo é compactuar com o absurdo. É lidar ao mesmo tempo com a pressa e a perda de tempo, um aguçando o outro, e olhar em volta, para a solidão enlatada, em desalento, indício máximo de que há algo muito fora do lugar. Dirigir em uma grande cidade é encarar buzinas e xingamentos como se fossem um comportamento natural, num contexto capaz de estressar qualquer um —pois que nervos suportam sem abalos meia hora de engarrafamento?

O trânsito dentro de um carro sempre me abalou, mas tenho a impressão de que as pessoas estão mais intolerantes, sempre prontas a apontar o erro alheio enquanto cometem o próprio. Chega a ser caricatural: no último sábado, mudei de pista depois de me certificar que havia distância suficiente para tanto e, com alguns segundos de atraso, o carro de trás se lançou à buzina. E não só: o motorista fez questão de se emparelhar comigo para, aos berros, me acusar de não ter dado seta. Mais adiante, o mesmo carro entra na frente do meu. Sem dar seta.

Novamente, o calor, a raiva, a impotência.

A sensação é de que as pessoas, em seus volantes, sentem-se como se estivessem no Twitter: prontas para agredir, acusar, brigar com adversários imaginários ou reais. A raiva à solta.

O pior lado de cada um sempre a postos, pronto para revidar o que quer que seja —mesmo quando não há agressão. Resultado, talvez, de uma combinação de pandemia, exaustão, más notícias para o Brasil e o mundo, de um esgotamento sem perspectiva de descanso. Resultado, também, de um governo que transformou impropérios em hábito e idiotia em projeto.

Ontem, cheguei em casa mais desanimada ao constatar que a raiva não se manifesta apenas dentro dos carros: uma senhora me deu bronca no ônibus porque eu, distraída com os fones de ouvido, não pedi licença para me sentar à janela e passar por ela, que ocupava o assento do corredor.

Mas em casa me esperava um livro.

Eu não sabia que ele me esperava: era pequeno, chegou com outros, e eu o abri para olhar as ilustrações. Cheiro de livro. O silêncio de um livro aberto, a textura de um livro novo.

E as palavras.

"Era uma vez duas irmãs. Que então era só uma, eu. Nosso nome é Sofia, mas poderia ser outro. Algum que seja bom de falar. Papoula, gingko biloba, bis-na-gui-nha. Estamos prestes a começar uma aventura, muito longe e sem carro."

Muito longe e sem carro, entrei no livro. Uma menina de 7 anos que quer se tornar invisível me leva pela mão. Entrei em sua árvore, em Sofia e seu país das maravilhas, terra de sonho, de poesia e de resgate. Sim, a sensação foi de resgate, ainda que literatura não se preste a isso. "O mundo? O que significa querer ir ao mundo? Se o mundo está sempre tão aqui, se nós somos o mundo para quem quer ir ao mundo também. Somos exatamente a parede de tijolos que os bloqueia, e a porta que se abre."

Sim.

A literatura não salva, não serve, não alivia, mas hoje, "A História Invisível", de Sofia Nestrovski, desembaçou meus olhos.

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