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Patógeno ambiental

Estadão

Às vésperas da principal cúpula ambiental do planeta, a COP-26, o Brasil está cindido. De um lado, uma nação com uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, quase 2/3 do território cobertos por vegetação nativa, uma legislação ambiental avançada e tecnologias agrícolas sustentáveis de ponta. De outro, um governo antiambientalista e conivente com práticas predatórias.

Segundo o Ibope, 9 em 10 brasileiros temem os danos do aquecimento global. Quase 8 em 10 acreditam que as queimadas na Amazônia prejudicam a reputação e as relações comerciais do Brasil, e defendem a preservação ambiental, mesmo que, num primeiro momento, isso afete o crescimento econômico.

Em carta aberta, dirigentes de dezenas de empresas e entidades setoriais defenderam metas climáticas ambiciosas. A Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, que reúne representantes do agronegócio, das finanças, da ciência e da sociedade civil, defendeu o combate implacável ao desmatamento e novas reservas ambientais.

O Instituto Brasileiro de Mineração, que representa 85% da produção do País, anunciou que o setor investirá US$ 6 bilhões em projetos socioambientais e defendeu um mercado de carbono “robusto, creditício e regulado”. O Congresso avança a regulação do mercado interno de carbono e os Estados constroem pontes junto à comunidade internacional.

A maior contribuição do Brasil contra as mudanças climáticas é a preservação florestal. O desmatamento responde por quase metade das emissões de gases de efeito estufa do País. O extraordinário é que a comunidade global não pede nada além do cumprimento do próprio Código Florestal brasileiro. O agro no Brasil independe da Amazônia, e o desmatamento só favorece o tráfico de madeira e a grilagem.

Mas, no acumulado dos dois primeiros anos do governo, os alertas de desmatamento cresceram 82% em relação aos três anos anteriores e as multas despencaram 93%.

Desbaratinado em meio à crise energética, o presidente oscila entre medidas inócuas (como pedir à população que tome banho frio ou evite o elevador), arbitrárias (como a suspensão das bandeiras tarifárias) ou predatórias (como a ampliação das usinas a carvão), ignorando orientações técnicas e ferramentas sustentáveis, como o Marco do Gás recém-criado pelo Congresso.

Tal como na pandemia, o presidente Jair Bolsonaro propalou um falso dilema entre saúde e economia, ele insiste em um conflito entre o ambientalismo e o desenvolvimento socioeconômico. Na ideologia bolsonarista, a causa ambiental está restrita a enclaves de esquerda hostis ao setor produtivo. Na realidade, é o contrário: o governo está isolado, enquanto a população e as forças produtivas clamam por uma economia sustentável e compromissos ambiciosos.

A bem da verdade, o País não está exatamente cindido, mas é refém de um presidente incompetente e retrógrado. Enquanto a população não expurga esse patógeno ambiental nas urnas, é imperativo que o Brasil que preserva e produz se imponha na arena política nacional e se faça ouvir nos fóruns internacionais. 

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