Entre os anos 1970 e 1990, a ação humana predatória fez com que elefantes africanos parassem de desenvolver suas presas, segundo um novo estudo publicado na última quinta-feira (22) no jornal científico Science.

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Conduzido por pesquisadores de um time internacional liderado por Shane Campbell-Staton, biólogo da Universidade Princeton, junto de especialistas na vida selvagem africana, o estudo analisou o período de 1977 a 1992 – auge de guerras civis no Moçambique e aumento no volume de caça de animais – bem como o efeito dessas ações nos dias atuais, para chegar à conclusão.

Durante o período referido, ambos os lados dos conflitos armados passaram a caçar elefantes de forma desenfreada, a fim de extraírem suas presas de marfim e vendê-las no mercado paralelo. Eles viriam a usar o dinheiro obtido para financiar mais armamento e contratação de mercenários para as guerras.

Segundo os dados coletados, cerca de 90% dos elefantes que viviam no que hoje corresponde ao Parque Nacional de Gorongosa morreram nas mãos de caçadores.

Imagem mostra um grupo de elefantes. Segundo estudo, a ação humana fez co que alguns elefantes deixassem de criar presas
Estudo mostra que apenas os machos dos elefantes africanos vêm mantendo suas presas, enquanto as fêmeas passaram a não criar as ferramentas como resposta à ação humana de caça predatória (Imagem: Michael Potter11/Shutterstock)

As fêmeas que sobreviveram, conta Campbell-Staton, simplesmente deixaram de criar presas, e essa característica genética foi passada de geração para geração. Antes dos conflitos, o cientista estima, apenas menos que um quinto dos elefantes não produziam a ferramenta.

A adaptação genética foi tanta, inclusive, que não apenas as mães passavam a características “sem presas” para filhotes, mas também a maior parte desses filhotes – mais ou menos 50% – eram fêmeas, a fim de que elas, quando atingissem a maturidade, continuassem “não criando” presas e preservando a espécie.

“Os anos de incerteza armada mudaram a trajetória da evolução daquela população”, disse o biólogo.

As presas de elefantes lhes são bastante úteis em vários aspectos: com elas, os animais conseguem escavar o chão em busca de água, raspar a madeira das árvores em busca de comida, até mesmo lutar contra outros elefantes. Entretanto, elas são feitas de marfim, um material extremamente valioso.

A fim de entender a influência da ação humana na criação de elefantes sem presas, Campbell-Staton contou com a ajuda de Dominique Gonçalves e Joyce Poole, duas biólogas locais que trabalham no parque nacional, observando os aproximadamente 800 elefantes que vivem na estrutura de conservação.

Mediante essas observações, o time percebeu que os elefantes sem presas eram, na maioria, fêmeas. Assim como nós, humanos, os gêneros de elefantes também podem ser diferenciados pelas características de seus cromossomos – em outras palavras, elefantes com cromossomos “XX” são fêmeas, enquanto “XY” são machos. Isso deu à equipe um ponto de partida.

O fato das fêmeas passarem essa característica adiante também com que eles suspeitassem que um gene dominante fosse o responsável pela ordem biológica de não desenvolver presas. Em épocas de acasalamento, quando esse gene dominante era passado para embriões masculinos. “Isso provavelmente acaba gerando abortos naturais”, disse Brian Arnold, outro biólogo de Princeton e co-autor do estudo.

A evolução natural, por si só, é um processo relativamente lento, que precisa de milhares – talvez até milhões – de anos para adaptar espécies a condições alteradas de vida. Entretanto, o fator humano pode acelerar isso: “o fato é que essa seleção dramática sobre a ação humana fazer elefantes não criarem presas foi exercida em um período de 15 anos – é uma descoberta impressionante”, disse Samuel Wasser, biólogo da Universidade de Washington, que não está envolvido no estudo.

A pesquisa agora continuará, com a avaliação do impacto que a ausência de presas traz na rotina dos elefantes: segundo o time, algumas mudanças já são notadas, como por exemplo a dieta. Fêmeas sem presas estão deixando de raspar madeiras de árvores e mudando o “cardápio” para vegetações rasteiras nas savanas africanas.

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