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'Se usar demais, a internet pode ser tóxica'

O Tempo

Em um quarto da pequena Cana Verde, no Sul de Minas, afundava um jovem com depressão profunda que passou um ano inteiro trancado em casa e até chegou a tentar suicídio. Quatro anos se passaram e, após buscar ajuda médica, agora o rapaz faz humor nas redes sociais e acumula uma multidão de seguidores – somente no Instagram são 5 milhões de pessoas.       

As gargalhadas atuais do influenciador digital Gustavo Tubarão em nada lembram os dias em que ele passava chorando em desespero. A morte de um amigo, em 2017, causada por um acidente, deixou a cabeça do jovem em ebulição. Ali ele percebeu que o descontentamento estava ficando sério demais.

“Eu pensava que estava morto ou em coma”, relembra. Era forte a pressão sobre o estudante do terceiro ano do ensino médio, sempre questionado sobre o futuro. Isso só piorava os níveis de ansiedade. “Na minha primeira crise veio uma dor no peito esquerdo que parecia que eu ia ter um infarto”, relembra. Mas desde criança ele já tinha sinais de síndrome do pânico. “Aos 6 anos, eu falava que estava delirando”, conta. 

Para não entrar em um buraco mais profundo, Tubarão acabou conseguindo criar forças para gravar vídeos para a internet, uma vontade antiga. “Eu não tinha coragem, mas naquele momento pensei que a vida era curta, e eu tinha que fazer”, diz. Assistiu a tutoriais sobre edição no YouTube, e era o início de algo que ele achou que fosse dar em nada. “Eu ria disso, então serviu de terapia pra mim”, rememora.

Foi preciso subir mais alguns degraus na caminhada da libertação até que Tubarão conseguisse tomar outra decisão adiada há tempos: mudar as apostas na área profissional. “Meu sonho era fazer teatro, mas eu não tinha coragem de falar isso com meu pai”, assume. Assim, largou a faculdade de direito, carreira que o pai almejava para o filho, e foi estudar artes cênicas. 

O jovem atrapalhado que gostava de fazer palhaçada jamais imaginaria que aquilo se tornaria um trabalho rentável.

O humor transformou a vida de Tubarão e presenteou as mídias sociais brasileiras com um criador de conteúdo engraçado, simpático e genuíno. São milhões de pessoas que se interessam pelo dia a dia rural de Tubarão, seus amigos, galinhas, patos, cavalos, a lagoa e Paiacin, o cachorro. “Acho que eu nunca estive tão bem”, comemora.

O agora influenciador tem usado o mês de setembro para falar sobre depressão em suas redes sociais. “Eu dizia que, se eu saísse (da depressão), eu iria ajudar muita gente”, diz. Mas quem o acompanha há mais tempo sabe que esse tema sempre aparece nas postagens de Tubarão e sua turma de amigos caipiras. 

A missão vem sendo cumprida, e os cuidados com a mente continuam. Tubarão faz acompanhamento com psicólogo e psiquiatra. Para não ter recaídas, evita as ilusões alimentadas pelo ambiente da internet e redes sociais. “Eu mesmo, quando entrava no Instagram e via todo mundo feliz e em lugar caro, eu me sentia ‘um bosta’. A última coisa que eu queria fazer com o povo era isso”, diz. “Se usar muito, a internet pode ser tóxica”, completa.

O influenciador acredita no poder de desmistificação da depressão. Já se filmou até durante crises de pânico. “Senão as pessoas pensam que a vida é perfeita”, pontua.

Mesmo com tantos seguidores, há dias em que ele some do Instagram e recomenda que seu público faça o mesmo. “Vou pescar, ler um livro. Isso me faz muito bem”, finaliza Tubarão.

Das Quebradas usa rap para falar sobre saúde mental

“Acordei, vomitei e botei pra fora”. Assim, sem rodeios, é a melhor forma encontrada pelo rapper Das Quebradas para explicar o processo de composição da música 188. Lançado em 2019, o rap narra a vida de uma pessoa que tentou suicídio e sofre com depressão. O número que batiza a canção remete ao telefone do Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade que realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio.

A história contada na música, na verdade, era a angústia que o próprio artista sentia. “Foi um pedido de socorro”, diz o rapper, que não tinha vontade de sair da cama. “Eu não sabia o que era dia ou noite, não queria ver os amigos. Parece uma fadiga e as pessoas ao seu redor não entendem”, explica.

Parte desse tormento tinha a ver com o próprio exercício artístico e suas expectativas. “O artista sofre com a ansiedade, porque você produz e espera do outro um retorno positivo”, conta. Quando esse retorno não chega, a frustração pode acabar se transformando em ansiedade. “Se as coisas não vão dando certo, você começa a se questionar”, explica.

Das Quebradas tenta aprender a lidar com esse sentimento e, enquanto isso, vai lançando um rap atrás do outro. Falar do cotidiano vivenciado na periferia de Belo Horizonte é algo em comum em suas músicas, sempre com mensagens positivas sobre autoestima e autocuidado. Nas redes sociais ele também manda o mesmo recado. E um novo disco está programado para sair ainda este ano.

Ser testemunha da desigualdade social brasileira acaba propiciando ao rapper um olhar particular da realidade, o que lhe confere ainda maturidade para compreender o melhor caminho para vencer as adversidades. “Com dedicação, se você não conseguir chegar ao seu objetivo, ao menos você vai chegar perto. É melhor do que desistir”, ensina.

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