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Histórias de um caixeiro-viajante

O Informativo do Vale

A pequena localidade de Campo Branco, no interior de Progresso, abriga um morador que exerceu por décadas a profissão de mascate, também conhecida como caixeiro-viajante. Antigamente, quando não havia a facilidade do transporte nas cidades, esses vendedores eram a única forma de transportar mercadorias entre diferentes regiões. A origem do termo mascate vem do árabe El-Matrac, o vocábulo usado para designar os portugueses que, auxiliados pelos libaneses cristãos, tomaram a cidade de Mascate, atual Omã, em 1507.
Omar Abdel Razek (78), hoje aposentado, nasceu na margem ocidental do Rio Jordão, na Jordânia, mas aos 21 anos mudou-se para o Brasil, atraído por um convite. "Meus primos que eram comerciantes aqui no Sul do Brasil diziam ser uma terra promissora e que eu me daria muito bem", conta. Sozinho, deixou os pais e cinco irmãos e partiu em busca da nova pátria. Sua vinda ocorreu de navio até Buenos Aires, seguindo após de ônibus até São Tomé, na Argentina, para pisar em solo gaúcho pela primeira vez na cidade de São Borja.
Logo em seguida, após uma rápida passagem por Santa Maria, estabeleceu-se em Venâncio Aires, onde começou a construir sua história como vendedor ambulante de roupas e tecidos, que eram adquiridos em São Paulo. Carregando duas malas, pesando 30 quilos cada uma, tomava o ônibus em Venâncio Aires e percorria localidades do interior de Barros Cassal, Lagoão, Tunas, Boqueirão do Leão e Progresso. De trecho em trecho, descia do coletivo e, a pé, percorria longas estradas entre Alto Honorato, Quatro Léguas, Xaxim, Alto Tamanduá e Bate e Vira, batendo de porta em porta para oferecer mercadorias como peças de roupas femininas e masculinas para adultos e crianças e cortes de tecidos para forros de cama e cortinas.
Diariamente andava cerca de 30 quilômetros por estradas poeirentas. "Às vezes descia do ônibus e caminhava muito por desconhecer a região", lembra. Razek recorda o fato de saber pouco sobre a língua portuguesa lhe resultou em muitas dificuldades. "Sabia muito falar em árabe e inglês, mas logo fui aprendendo." E foi nas visitas e negociações que também aprendeu lições que ainda hoje são lembradas. "Vendia quase tudo fiado, anotava e, no mês seguinte, cobrava. O povo era mais honesto", salienta.
À noite, quando não conseguia retornar para casa, sempre alguém lhe oferecia pouso. "As pessoas sempre foram muito receptivas. Seguidamente ainda encontro alguém que foi freguês ou me abrigou. Fui padrinho de mais de 40 crianças. São marcas que ficam." Ele exerceu a profissão até por volta de 1985. "Por diversas vezes parei, mas logo enchia as malas e ia para a estrada novamente" Hoje, com família constituída de cinco filhos, possui o Mercado União, ponto tradicional da localidade, administrado pela filha Nelzi, onde é possível em meio a centenas de mercadorias ainda se encontrar tecidos em metro, como nos tempos de mascate. As entregas das mercadorias, ao contrário de sua época, são feitas por caminhões.
Numa das visitas a Alto Honorato, interior de Progresso, o vendedor conheceu a esposa Lurdes, falecida em 2016. Durante muitos anos o casal dedicou-se também a agricultura na plantação de feijão, fumo e milho. Rezek orgulha-se muito dos filhos. "Consegui com muito sacrifício encaminhá-los para a vida. Cursaram Ensino Superior e temos hoje advogado e pedagoga na família".
De sua pátria-mãe, Razek, que é islâmico, diz herdar a crença em Deus. "Sempre rezo em silêncio antes das refeições. Se temos o que comer, não podemos reclamar. Aliás, temos mais a agradecer do que pedir por viver num país em que a democracia impera e dá total liberdade às pessoas." Quando ora, sempre dirige-se em direção à Meca. Nunca retornou ao seu país de origem, mas pela internet fala seguidamente com seus irmãos. Tem primos que trabalham em Dubai. Pela manhã ao acordar, as primeiras palavras que profere são Al-hamdu-lillah, "Graças a Deus" ou Allauhu Akbar "Deus é grande".
Também é muito dedicado à leitura. Nesses tempos de pandemia do Covid-19 diz que leu muitas obras recentemente sobre a China e está convicto que pode ter sido algo implantado. Sobre o Brasil é categórico. "A pátria de meus filhos é minha pátria. Amo este lugar que me acolheu, sou torcedor do Grêmio e da Seleção nacional." Para os mais jovens ele deixa um recado: "Vale a pena lutar pela vida. Trabalho, dedicação, amor ao próximo, honestidade e sinceridade, tudo isso faz crescer um povo."

 

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